terça-feira, 3 de novembro de 2009

Dá a surpresa de ser



Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.
   
Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.
  
E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.
   
Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?
  
  
Fernando Pessoa, in
"366 poemas que falam de amor", org. de Vasco Graça Moura,
Quetzal Ed., Lisboa, 2003.
     

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Começo ou recomeço?


Começo de novo... o rumo de sempre
Aquele que sempre começo e nunca acabo
Aquele que volto atrás porque acho que não consigo
Aquele cheio de dúvidas, de preguiça...
Falta de vontade!

Mas hoje quero ser melhor,
Mesmo que já seja noite, quero tentar
Não quero ceder ao faço amanhã, não hoje
Hoje... que palavra abrangente, hoje não
Agora, Neste momento, neste preciso milésimo de segundo!

Que seja inverno, que chova, que neve,
Que venha a maior tempestade, o maior vendaval
Estou farta de nadar na minha própria miséria.
Não tento porque posso falhar... pobre idiota
Morte a essa saga! A esses pensamentos medíocres!

Neste momento largo este estado de apatia
Porque ter preguiça de viver, de arriscar, de perder
Não só nos distância do que procuramos, como ainda
Nos destrói por dentro.
Que tudo isso desapareça, e que dê lugar a mim.