terça-feira, 3 de novembro de 2009

Dá a surpresa de ser



Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.
   
Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.
  
E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.
   
Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?
  
  
Fernando Pessoa, in
"366 poemas que falam de amor", org. de Vasco Graça Moura,
Quetzal Ed., Lisboa, 2003.
     

Sem comentários:

Enviar um comentário